O Cinema em 2014: Os Melhores e O Ranking

Os 14 melhores filmes e o ranking geral de 2014.

Os Quadrinhos em 2014: Alguns Destaques

Os gibis que marcaram o ano à sua maneira.

O Cinema em 2014: As Bombas e Decepções

Os 15 filmes que só fizeram chorar.

A Música em 2014: Os Melhores e Os Piores

Os álbuns que marcaram o ano - para bem ou para mal.

O Cinema em 2014: As Boas Surpresas

Os 11 filmes que mandaram bem, apesar de tudo.

Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de dezembro de 2014

Crítica: As Aventuras de Paddington

Primeira incursão de personagem no cinema carece de coragem narrativa

Por Pedro Strazza

Na extensa galeria de protagonistas emblemáticos da literatura infanto-juvenil britânica, o urso Paddington tem certo destaque. Criado no final dos anos 50 pelo escritor Michael Bond, o imigrante peruano atrapalhado que vive com a família Brown é a estrela de uma série de livros que até hoje tem novos volumes publicados e público interessado. A fama é tão boa que o personagem ganhou nos cinemas um filme em live-action, contando com um elenco invejável e efeitos visuais para recriá-lo na telona.
Por ser a primeira incursão do urso no formato, As Aventuras de Paddington tem por objetivo principal introduzir o protagonista, sua história e as pessoas com que relaciona para os espectadores, e faz isso sem muitos problemas. Na trama, após uma sequência trágica de acontecimentos, Paddington (Ben Wishaw) se vê obrigado a se mudar sozinho da floresta onde vivia com o tio (Michael Gambon) e a tia (Imelda Staunton) para a Inglaterra. Em um país estranho e totalmente diferente de sua rotina, ele busca encontrar um lar com um explorador que há muitos anos visitou seus parentes, e para isso conta com a ajuda da família Brown.
Como longa infantil, o filme encanta pela diversão simples que proporciona. Das peripécias de Paddington - que muitas vezes remetem às loucuras visuais de As Aventuras de Tintin - aos exageros das atuações do elenco muito bem montado, a aventura escrita por Paul King (também diretor aqui) e Hamish McColl possui em seu âmago um humor leve e descompromissado, típico das produções do gênero, mas muito bem aplicado graças à simpatia do protagonista. E isso não se restringe apenas ao núcleo principal, como bem pode-se ver nas gags periféricas recorrentes ou no vizinho mal-humorado vivido por Peter Capaldi.
O clima de comédia "rasa mas gostosa", porém, não oculta do filme a sua falta de coragem para explorar de forma simples assuntos ousados. O drama do imigrante vivido por Paddington, por exemplo, é usado pelo roteiro apenas para unir o urso com os Brown e dar o pontapé à história, mas com poucos movimentos na narrativa poderia ser um dos grandes temas a guiar os rumos do protagonista. E se no enredo é ausente essa maior audácia, na direção King é bastante procedural e óbvio, experimentando planos holandeses sem nenhum sucesso em um ou dois momentos.
Afim apenas de apostar no garantido para apresentar um clássico personagem da literatura, As Aventuras de Paddington de certa maneira é um acerto por conseguir realizar na tela seus objetivos iniciais. A falta do algo a mais em suas intenções, entretanto, o impede de deixar a categoria de produção para passar o tempo e ser algo mais marcante e de valor para seu público, tanto para crianças quanto para adultos.

Nota: 7/10

Crítica: O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos

Capítulo final evidencia tanto erros quanto acertos de toda a trilogia

Por Pedro Strazza

Há um tempo (mais exatamente no final dos anos 90), o cineasta George Lucas e sua Lucasfilm anunciaram que Star Wars enfim ganharia mais uma trilogia, passada antes dos eventos dos três primeiros filmes. A notícia atingiu o mundo de maneira brutal, e a grande legião de fãs foi assistir A Ameaça Fantasma com uma empolgação absurda, almejando ver na telona uma história de proporções similares aos longas dos anos 70/80. O resultado chocou: Além de trazer no primeiro capítulo uma trama simples, Lucas deixou claro no filme a preferência pelo arroubo visual que permearia a nova trilogia, investindo muito mais em cenários exuberantes e batalhas de impacto que em um roteiro de personagens e situações complexas.
De certa forma, a escolha tomada por Lucas lá atrás não é tão diferente da feita por Peter Jackson neste começo dos anos 2010 com O Hobbit. Responsável por adaptar com excelência a trilogia de livros O Senhor dos Anéis para a grande tela, Jackson resolveu dividir a história de 300 páginas em três filmes de mais de duas horas cada, visando na teoria acrescentar à aventura de Bilbo vários contos de J.R.R. Tolkien e conseguir maior arrecadação nas bilheterias para custear a sua mais nova e ambiciosa produção. Na prática, o que se viu em cena nos dois primeiros filmes foi uma dedicação homérica de tentar encantar mais pela ação que pelos eventos, um desbalanceamento claro do equilíbrio entre trama e espetáculo da primeira trilogia - algo irritante, óbvio, para fãs da franquia.
Mas se em Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug viu-se certo acanhamento do diretor nessa questão, em A Batalha dos Cinco Exércitos é evidente que ele enfim resolveu fazer da história apenas um espetáculo. Como bem indica no título, o terceiro capítulo de O Hobbit gira primordialmente em torno de um conflito gigantesco, gerado pela derrocada do dragão Smaug (Benedict Cumberbatch) e a questão de quem assumirá o comando da Montanha Solitária. Anões, humanos, elfos, orcs... todas as raças da Terra-Média estão envolvidas na disputa, e uma guerra de grandes dimensões se instaura no local.
E com tanto tempo disponível (são duas horas e vinte cinco minutos de duração), o que se vê na produção é justamente isso: um épico. Aliado à fotografia de Andrew Lesnie, bastante balanceada entre o deslumbramento dourado de Uma Jornada Inesperada e o clima sombrio de A Desolação de Smaug, e os efeitos visuais da sempre eficaz Weta Digital, Jackson enquadra a batalha e seus combatentes com precisão, e se utiliza de todo o seu aprendizado nos outros cinco filmes - o estilo de luta característico de cada facção, os planos aéreos, a ação em duas frentes - para gerar uma verdadeira exibição de cenas de grande porte. Não à toa, o que se vê no terceiro O Hobbit é uma sucessão de ações super-humanas semelhante à continuidade de um show, em que cada evento parece merecedor de aplausos.
O desenvolvimento da ação visual, porém, não esconde de A Batalha dos Cinco Exércitos os seus problemas graves na trama. O roteiro elaborado por Fran Walsh, Philippa Boyens, Guillermo Del Toro e Jackson parece não se incomodar mais em deixar mal explicado várias passagens e acontecimentos, e até deixa em aberto vários desfechos de personagens, como os de Tauriel (Evangeline Lilly) ou de Saruman (Christopher Lee), denotando clara dependência do longa na trilogia do Senhor dos Anéis - algo que novamente remete aos trabalhos de Lucas, cuja nova trilogia só funciona com os três Star Wars originais vistos. É evidente o erro de esticar o conto em três capítulos cinematográficos, pois mais do que nunca falta conteúdo em um filme baseado em uma obra de Tolkien.
Outro ponto grave na narrativa são os personagens, que além de aparecerem e desaparecerem ao bel-prazer da história - e alguns são incluídos sem qualquer necessidade, como é o caso de Alfrid (Ryan Gage) - são elaborados sem nenhum fundamento. Só observar, por exemplo, a trajetória final de Thorin (Richard Armitage), que varia seu humor sem qualquer motivo por causa da "doença do dragão" (outro ponto muito mal explicado e usado sem pretexto algum) e chega a absurdos como ir da alegria à raiva em um take. E sem essa substância, as boas atuações do vasto e primoroso elenco são bastante prejudicadas.
Com certa ironia, é curioso pensar que O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos reflete em seu conteúdo toda a trilogia elaborada por Peter Jackson nesses últimos três anos. É um trabalho visualmente arrebatador, com efeitos deslumbrantes e ação bastante eficiente, mas ao mesmo tempo possui um interior vazio, gerado por personagens mal desenvolvidos por um roteiro apoiado exclusivamente no emocional de uma trilogia, essa sim, brilhante. Para Jackson, assim como Lucas, vale muito mais no prelúdio um espetáculo impressionante que um filme bem trabalhado. Uma pena? Sim, claro.
Mas que é um baita de um espetáculo...

Nota: 9/10


Crítica: Homens, Mulheres e Filhos

De uma forma (bem) geral, a reflexão no cinema acontece em três fases. Na primeira, a obra apresenta ao público uma história a ser seguida, com personagens e um mundo estabelecidos logo em seu início. Na segunda, o longa começa a mostrar eventos que de algum jeito alterem o status quo das pessoas ou do universo (pequeno ou grande) onde vivem, fazendo assim com que sua rotina mude drasticamente. Por fim, o filme gera durante ou ao final da jornada traçada pelos indivíduos envolvidos um desenvolvimento sobre um tema (abstrato ou concreto, político ou emocional...) presente na sociedade, e esta elaboração transforma em caráter decisivo o(s) personagem(s).
Se a produção segue à risca essa linha de raciocínio e trabalha bem esses três momentos, as chances de seu sucesso aumentam de maneira considerável. E se o comando do longa estiver a cargo de um bom cineasta, o procedimento é simples e de fácil execução.
Considerando tudo isso, é duro ver que Homens, Mulheres e Filhos, o novo trabalho do ótimo diretor Jason Reitman, se perca justamente no terceiro momento de sua reflexão acerca da relação entre a humanidade e a tecnologia. O filme, afinal, elabora muito bem seus personagens e os desdobra em situações que englobem o assunto proposto de forma natural, mas não consegue levar tudo isso a uma ponderação mais interessante e profunda.
Baseado no livro escrito por Chad Kultgen, o roteiro escrito por Reitman e Erin Cressida Wilson acompanha a história de cinco jovens e suas respectivas famílias, cada um representando algum tipo de vício na internet e suas redes sociais. Estão lá os viciados em pornografia online (Travis Tope), os que querem fama a qualquer custo (Olivia Crocicchia), os desejosos de escapar da realidade dura e cruel (Ansel Elgort), o casal atrás de emoções fora do casamento (Adam Sandler, Rosemarie DeWitt), a mãe ultra protetora de seu filho quanto a todo perigo oferecido pelo mundo lá fora (Jennifer Garner)... são personagens de dramas bastante reais, e o diretor filma seus desejos e aflições buscando aproximá-los do espectador.
E isso ele faz muito bem. Como já havia mostrado nos excelentes Juno e Amor Sem Escalas, Reitman é excelente para desenvolver os indivíduos que acompanha em seus filmes, dotando-os de uma sensibilidade característica e apaixonante. Não à toa, a maior força de Homens, Mulheres e Filhos reside nesse ponto: Todos as pessoas apresentadas são interessantes ao público, que por sua vez os acompanha de maneira voluntária e sem precisar de maiores informações.
Mas toda a boa composição inicial dos personagens parece ter sido feita para nada na hora de abordar o tema da produção. Mesmo suficientemente cativantes, seus caminhos trilhados não evocam uma reflexão maior sobre seus vícios tecnológicos, e quando eles o fazem (de forma pontual), soam tão rasos quanto as redes sociais que se utilizam. Só observar, como exemplo, a adolescente obcecada com a fama interpretado por Crocicchia, cuja preocupação com o sucesso virtual não consegue ser explorado pelo diretor em cena para discutir os efeitos da popularidade sem motivo e do excesso de confiança no ser humano - algo que só é arranhado com muita leveza (e aqui aviso que há pequenos SPOILERS do longa) quando ela tenta transar com o viciado em pornografia e não consegue (e repare como Reitman enquadra, somente por um segundo, sua reação ao ver o garoto tentando se estimular sem sua ajuda).
Não deixa de ser interessante o fato de que Homens, Mulheres e Filhos possua uma profundidade similar aos sites de relacionamento que aborda. Ao invés de se enveredar por um tema tão difícil e complexo, o filme busca apenas a diversão proporcionada pelas histórias que conta, e isso seria o bastante para uma produção sem muitas ambições. O problema aqui, porém, é que há ambições na direção de Jason Reitman. Elas só não se concretizam.


Nota: 6/10